Em meio à paisagem amazônica de Ji-Paraná, município de Rondônia, um curta-metragem vem chamando a atenção pela sensibilidade com que retrata a capoeira e suas conexões profundas com a natureza, o corpo e a comunidade.
Com direção de Otavio de Sousa e produção de Adrian Jhonnson, Ecos de Aú propõe uma verdadeira imersão na roda de capoeira, explorando a fronteira entre o documental e o ficcional.
Não há um roteiro pré-definido ou personagens inventados. O que há é uma narrativa construída com base na vivência do grupo Abadá Capoeira, que atua em Ji-Paraná desde 1990, com forte inserção comunitária, principalmente junto a crianças.
O trabalho vai além da representação estética da roda de capoeira. A narrativa opta por uma abordagem híbrida, respeitando o fluxo real das rodas organizadas semanalmente pelo grupo.
Buscando interferir o mínimo possível na dinâmica tradicional do jogo, a equipe de filmagem capturou o que de fato acontece nas rodas: o movimento coletivo, as trocas corporais, as expressões musicais e o simbolismo presente na prática.
Para além do plano físico, Ecos de Aú mergulha na dimensão simbólica e emocional dos capoeiristas, explorando a relação entre suas subjetividades, os movimentos da capoeira e os cinco elementos da natureza – terra, água, fogo, ar e espaço.
“A roda de capoeira que aparece no filme é a mesma que acontece todas as semanas em Ji-Paraná, com as pessoas reais que fazem parte do grupo, suas histórias e suas formas únicas de se expressar dentro da capoeira”, explica o capoeirista e diretor de produção Adrian Jhonnson.
Ele conta que a proposta era mostrar a capoeira em sua essência.
“Na capoeira, ninguém joga sozinho. Ela é canto, é palma, é toque, é corpo em movimento e, principalmente, é comunidade. Estamos falando de uma herança cultural, de um espaço onde se aprende disciplina, respeito e trabalho em grupo”, acrescenta.
A trilha sonora é outro destaque do curta. Combinando os tradicionais instrumentos da capoeira com faixas do álbum Elementa, da musicista italiana Isabella Fabbri, a sonoridade reforça a proposta sensorial do filme, alternando entre o real e o onírico.
A escolha por gravar em uma chácara, na zona rural de Ji-Paraná, assim como em alguns lugares da cidade, contribuiu para ajudar a criar a atmosfera pensada para o filme.
O título Ecos de Aú condensa boa parte da proposta do filme. O “aú” é um dos movimentos mais versáteis da capoeira, capaz de operar como ataque, defesa, esquiva ou exibição — um giro no ar feito com as mãos no chão e as pernas em movimento. Já “ecos” remete à reverberação física e simbólica que o filme deseja provocar: uma experiência que sai da roda e alcança o público, expandindo significados.
“Ecos tem a ver com a própria palavra, com o som que reverbera. Mas também com a história de Eco, da mitologia grega, que morreu e seu som ecoou pela caverna. Pensamos nisso como algo que permanece, que vibra mesmo depois do fim da roda”, explica Adrian.
Para Otavio, o título representa a síntese da proposta:
“a ideia de que há um jogo físico, mas que também há outras reverberações e possibilidades tanto da capoeira quanto dos capoeiristas, de quem faz e quem pratica”, destaca o diretor.
Apesar de buscar referências no cinema nacional, através do filme Besouro (2009), que também aborda a capoeira como um símbolo de resistência cultural, Ecos de Aú carrega a identidade jiparanaense.
“Ji-Paraná representa uma história para a gente e para os capoeiristas que participaram do filme. Eu sou fruto da terra, Otavio também é daqui. E acho que isso é importante para que nossa cidade seja referência em produção cultural para outras regiões do Brasil, de Rondônia e do mundo”, destaca Adrian.
Após passar pela fase de exibição de teste, que aconteceu recentemente em Ji-Paraná, Ecos de Aú entra na etapa de ajustes finais, almejando uma estreia oficial em um festival nacional de cinema.
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