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A 14ª Bienal Sesc de Dança celebra diversidade, ancestralidade e novas linguagens no segundo dia

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Conexões Culturais| O segundo dia da 14ª Bienal Sesc de Dança reafirmou seu caráter diverso, que até 5 de outubro transforma a cidade em palco de encontros entre diferentes tradições, estéticas e narrativas do movimento. Ao todo, são cerca de 80 atividades, são espetáculos, performances, instalações e ações formativas que reúnem artistas de 18 países e de 10 estados brasileiros, expandindo os limites da cena contemporânea e convidando o público a experimentar novas percepções e reflexões. Entre os destaques está a participação da Temporada França-Brasil 2025, que integra a programação em celebração aos 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países.

Espetáculos que marcaram o segundo dia

O Gira Saia Grupo, nascido em Campinas, apresentou “Saias”, obra que transforma a saia em símbolo de liberdade e potência feminina. Inspirado por ritmos como maracatu, jongo, ijexá e samba de roda, o espetáculo entrelaça dança, poesia, canto e percussão em um manifesto sobre ancestralidade e feminilidade.

A coreógrafa e fundadora, Renata Oliveira, destacou a importância da apresentação na Bienal:

“O espetáculo Saias, em 2028, vai completar 10 anos. É uma caminhada com o elenco se consolidando, inclusive em suas carreiras individuais. Estar aqui é uma honra, porque é um festival de magnitude tremenda e também uma oportunidade de mostrar que Campinas tem um trabalho potente, dialogando com a temática da Bienal: corpos dissidentes, outros corpos dançando, outros corpos possíveis na arte. O próprio girar da saia anuncia que outros corpos são possíveis e urgentes no mundo contemporâneo.”

Ela também ressaltou a força das danças afro-brasileiras e o sentido do trabalho:

“As danças afro-brasileiras trazem essa luz, pois em sua maioria, são danças em roda, que giram no sentido anti-horário, resistindo a um sistema que oprime identidades e corpos. “Saias” é um convite a esse movimento, fazendo girar ancestralidades, culturas e danças. Mostra que todos nós temos uma identidade inerente e que isso é urgente de ser fortalecido e conscientizado. Todo mundo dança e tem o direito de se estabelecer dentro de sua identidade, cultura e corpo. A saia é o elemento principal, mas quem dá vida a ela é a mulher, é o feminino dentro dessas manifestações. Esse é o corpo dissidente que a gente propõe.”

Outro espetáculo de destaque foi “Dandyism [Dandismo]”, fruto da parceria com o Cultura Inglesa Festival. Com direção do ruandês-britânico Ziza Patrick e do brasileiro Ricardo Januário, a obra transforma a moda em gesto político, inspirada no movimento congolês La Sape, que faz referência às pessoas que vestem alta-costura e marcas de luxo, utilizando a moda como uma forma de expressão, resistência e afirmação da identidade.

Apresentado na praça pública Bento Quirino, região central de Campinas, o espetáculo desde a primeira aparição dos atores, se revela através do impacto visual dos figurinos e da beleza coreográfica, que alia dança e performance, provocando a reação imediata do público, que interage, dança e se diverte com os artistas. É preciso destacar a caráter inclusivo do espetáculo, que conta com uma artista PCD (Pessoa com Deficiência) e com um artista intérprete de Língua de Sinais (Libras) que traduz para o público surdo as falas do espetáculo não em um local específico, como tradicionalmente se vê, mas ele integra a performance.

A noite também trouxe o espetáculo francês “A mon seul désir [Ao meu único desejo]”, da coreógrafa Gaëlle Bourges, que reuniu 30 performers brasileiros em uma investigação coreográfica sobre erotismo, poder e imagem a partir de tapeçarias medievais.

O espetáculo À mon seul désir constrói uma experiência sensorial em que a iluminação não atua apenas como recurso técnico, mas como elemento dramatúrgico que desenha corpos e cria atmosferas, onde luz recorta as artistas, transforma-as em mosaicos vivos, revelando a precisão quase escultórica ou um desenho minucioso das poses, enquanto o áudio do espetáculo dá vida à geometria dos movimentos e a organicidade dos gestos, como se a cena fosse um painel vivo.

A imagem do coelho funciona como metáfora à fertilidade e ao desejo, associado tanto ao imaginário da abundância quanto à vitalidade da sexualidade, fato que faz surpreender o final do espetáculo.

Já a instalação cênica “Bailarina Fantasma”, interpretada por Verônica Santos, resgatou as memórias apagadas da presença negra na história da dança. Indicada ao Prêmio APCA e ao Prêmio Shell, a obra nasce do diálogo entre a icônica escultura de Degas e o testemunho da própria artista, convertendo a cena em espaço de denúncia e resistência.

A Bailarina Fantasma é uma experiência poética de rara intensidade. Apresentada em um antigo galpão de armazenamento de café, luz, piano ao vivo e a presença visceral de Verônica Santos transformam o espaço em memória e ferida, revelando a beleza e a dor de uma menina periférica e preta que ousou sonhar ser bailarina. Um diálogo vivo com Degas, que expõe não apenas a forma, mas a força e a resistência da arte.

Uma curadoria plural e política

A programação da Bienal é assinada por um coletivo de curadores do Sesc São Paulo como Ana Carolina Massagardi, Ana Dias de Andrade, Augusto Braz, Cléber Tasquin, Maitê Lacerda, Marcos Takeda, Marcos Villas Boas, Mateus Menezes, Paula Souza, Sara Regina Centofante, Simone Aranha, Talita Rebizzi e Vinicius Souza, em parceria com o artista convidado Flip Couto, cuja trajetória valoriza estéticas negras, o hip-hop e o universo ballroom. O recorte curatorial destaca temas como resistência colonial, preservação da identidade e vitalidade comunitária, reafirmando a dança como espaço de invenção e de afirmação social.

SERVIÇO

BIENAL SESC DE DANÇA

De 25 de setembro a 5 de outubro – Campinas (SP)
Programação completa: sescsp.org.br/bienaldedanca
Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia), R$ 12 (credencial plena).

Locais das apresentações

Sesc Campinas – Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim. Telefone (19) 3737-1500.
CIS Guanabara – Armazém I | Armazém II | Gare – Rua Mário Siqueira, 829 – Botafogo.
Estação Cultura – Praça Marechal Floriano Peixoto, s/n° – Centro (entrada de público). Rua Francisco Teodoro, 1.050 Vila Industrial (estacionamento).
Largo das Andorinhas | Travessa São Vicente de Paula – Av. Anchieta, s/nº – Centro (em frente à escola Carlos Gomes).
Praça Bento Quirino – Entre a Rua Barreto Leme, Rua Barão de Jaguara e Avenida Benjamin Constant – Centro.
Praça Rui Barbosa – Rua 13 de maio, s/nº – Centro (próximo ao nº 159).
Praça Carlos Gomes – Rua Irmã Serafina s/nº – Cambuí
Rodoviária – Terminal Multimodal Ramos de Azevedo – Rua Dr. Pereira Lima, 60-140 – Vila Industrial.
Senac Campinas – Rua Sacramento, 490 – Centro.
Teatro Municipal José de Castro Mendes – Rua Conselheiro Gomide, 62 – Vila Industrial.
Unicamp – Cidade Universitária Zeferino Vaz, s/n° – Barão Geraldo.
Mais informações? Serviços – Bienal Sesc de Dança

Fotos: Wagner Moreira/Portal Cultura Amazônica

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