Conexões Culturais| O espetáculo “Minas de Ouro”, dirigido por Carmen Luz e apresentado na 14ª Bienal Sesc de Dança, em Campinas, transcendeu a forma de cortejo para se afirmar como uma procissão estética, política e ancestral. A cidade, em pleno centro histórico, tornou-se palco de uma intervenção que uniu dança, memória e resistência.
Das laterais da Basílica Nossa Senhora do Carmo, surgiram passistas de samba de Campinas e do Rio de Janeiro, todas em tons dourados e amarelos. O dourado, mais que adorno, evocava o ouro colonial – símbolo de riqueza e exploração, mas também metáfora da beleza e resistência negra. As placas carregadas pelas artistas estampavam anúncios como “Vende-se ouro” e “Compra-se ouro”, lembrando letreiros das regiões centrais de grandes capitais, agora ressignificados como crítica ao reduzir de vidas negras à condição de mercadoria. Os trocadilhos também estampavam as placas como manifesto expresso.
Na concepção de Carmen Luz, cada corpo era sagrado. Os movimentos não se limitavam à dança: eram ritos, orações e gestos de insubmissão. Atravessar o centro histórico de uma cidade que se desenvolveu a partir da produção agrícola e da exploração da mão de obra negra em seus cafezais é símbolo de contraposição, afirmação e resistência. A imagem sintetizou séculos de escravidão e, ao mesmo tempo, apontou para uma reescrita simbólica da memória urbana.
O cortejo percorreu três praças, obrigando motoristas e transeuntes a parar e testemunhar a força das passistas. A intervenção não apenas ocupou a cidade, a reconfigurou, instaurando um território onde o corpo negro é centro e celebração. O desfecho em clima carnavalesco não foi mero divertimento, mas sim a explosão política da alegria como forma de resistência.
Ao final, a frase “A beleza vinga” estampava a procissão, condensando o sentido da obra. “Minas de Ouro” celebrou a genialidade e a potência da mulher negra, reafirmando o carnaval e a dança como arquivos vivos de memória, luta e invenção do Brasil. A apresentação contou com artistas do Rio de Janeiro, onde a primeira versão da obra foi criada, e da região de Campinas, que participaram de uma residência com a equipe criativa.

SERVIÇO
BIENAL SESC DE DANÇA
De 25 de setembro a 5 de outubro – Campinas (SP)
Programação completa: sescsp.org.br/bienaldedanca
Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia), R$ 12 (credencial plena).
Fotos: Wagner Moreira/ Portal Cultura Amazônica

















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