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Autophagies: quando o alimento se torna denúncia e memória coletiva

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Conexões Culturais| A 14ª Bienal Sesc de Dança segue sua programação até 5 de outubro, em Campinas. Celebrando uma década de presença na região, a edição 2025 reúne artistas de 18 países e 10 estados brasileiros em uma programação que cruza corpos, ritmos e linguagens. Entre espetáculos, performances, instalações e ações formativas, o público é convidado a ampliar suas percepções e mergulhar nos múltiplos sentidos da dança contemporânea.

Foi nesse contexto de diversidade e experimentação que o espetáculo Autophagies, da diretora francesa Eva Doumbia, se apresentou. No ginásio sala teatro, antes mesmo de atravessar a porta de entrada, o público já era capturado pelos sentidos. Um cheiro intenso de especiarias em cozimento preenchia o corredor e conduzia os espectadores a uma experiência que extrapolava os limites da cena. Autophagies é mais do que dança, ele entrelaça artes cênicas, música, literatura, instalação e documentário em uma narrativa híbrida. É ritual, denúncia e memória histórica servida à mesa.

O espaço teatral transformou-se em templo. O palco, convertido em cozinha, acolhia um chef que, entre panelas e outros utensílios, adicionava tempero ao arroz e ao caldo que preparava, como sacerdote de um culto político e sensorial. Ao lado, um púlpito evocava a liturgia do discurso e um piano aguardava sua intervenção sonora. Tudo parecia preparado para um encontro com o sagrado, mas um sagrado atravessado pelas contradições da história colonial e pelos dilemas do presente.

A dramaturgia de Autophagies opera como mosaico. Imagens documentais projetadas em tela escancaravam as desigualdades econômicas de agricultores em diversas partes do mundo: homens e mulheres que produzem arroz, mandioca, cacau, banana, amendoim, bens essenciais à sobrevivência, mas que carregam a marca da exploração, da desvalorização e da violência estrutural. Esses fragmentos audiovisuais se entrelaçavam à coreografia do bailarino e bailarinas, que corporificavam a exaustão, os gestos repetitivos e as lutas desses trabalhadores. O corpo dançava aquilo que o lucro financeiro insiste em ocultar.

A música, por sua vez, adensava as camadas críticas. Num momento-chave, a cena transformou-se em culto gospel: a voz fervorosa ressoava, mas em vez de exaltação espiritual, o louvor denunciava as dores sociais e as feridas coloniais. Era a liturgia da resistência, onde a fé e a arte se fundiam para dar voz a um grito coletivo sufocado por séculos.

O espetáculo levantava questões centrais sobre o preço político do alimento que chega à mesa, sobre histórias de migração, escravidão, conquista e devastação ambiental que se escondem atrás de cada grão de arroz e de cada barra de chocolate, e ainda, a forma com que a modernidade europeia se ergueu sobre o saque de recursos naturais e a exploração de povos do Sul global.

Ao final, a cena rompeu definitivamente a parede, pois o público foi convidado a participar de um banquete. No prato, o tradicional Mafé, um guisado africano de amendoim e a sobremesa era a provocação metafórica proporcionada pela autocrítica. Comer, ali, não era só gesto de partilha, mas ato político. O alimento tornou-se documento histórico e ponte de reflexão entre corpos, culturas e gerações.

Eva Doumbia, com Autophagies, não entrega respostas prontas. O espetáculo é desconforto e celebração ao mesmo tempo. É um chamado urgente para que repensemos nossas práticas de consumo, mas também uma homenagem à potência criadora dos povos cujas memórias, saberes e sabores continuam vivos apesar das cicatrizes coloniais.

Mais que arte, Autophagies é um banquete de consciência.

SERVIÇO

BIENAL SESC DE DANÇA

De 25 de setembro a 5 de outubro – Campinas (SP)
Programação completa: sescsp.org.br/bienaldedanca
Ingressos: R$ 40 (inteira), R$ 20 (meia), R$ 12 (credencial plena).

Locais das apresentações

Sesc Campinas – Rua Dom José I, 270/333 – Bonfim.
CIS Guanabara – Armazém I | Armazém II | Gare – Rua Mário Siqueira, 829 – Botafogo.
Estação Cultura – Praça Marechal Floriano Peixoto, s/n° – Centro (entrada de público). Rua Francisco Teodoro, 1.050 Vila Industrial (estacionamento).
Largo das Andorinhas | Travessa São Vicente de Paula – Av. Anchieta, s/nº – Centro (em frente à escola Carlos Gomes).
Praça Bento Quirino – Entre a Rua Barreto Leme, Rua Barão de Jaguara e Avenida Benjamin Constant – Centro.
Praça Rui Barbosa – Rua 13 de maio, s/nº – Centro (próximo ao nº 159).
Praça Carlos Gomes – Rua Irmã Serafina s/nº – Cambuí
Rodoviária – Terminal Multimodal Ramos de Azevedo – Rua Dr. Pereira Lima, 60-140 – Vila Industrial.
Senac Campinas – Rua Sacramento, 490 – Centro.
Teatro Municipal José de Castro Mendes – Rua Conselheiro Gomide, 62 – Vila Industrial.
Unicamp – Cidade Universitária Zeferino Vaz, s/n° – Barão Geraldo.

Fotos: Yghor Palhano/ Portal Cultura Amazônica

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