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“Farinha Poética”: o rito da memória histórica e afetiva

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Conexões Culturais| Durante a 14ª Bienal Sesc de Dança, em Campinas, o artista paraense Juani Maniva apresentou “Rito Artístico: Farinha Poética”, uma performance que atravessa a fronteira entre a dança e o ritual. O que se viu foi uma cerimônia da memória, uma travessia poética em que o corpo se fez território, e o gesto, linguagem de ancestralidade.

Ao chegar, o público se concentrou em torno de um território simbólico construído por Maniva, uma instalação de fotos presas a cestarias penduradas em uma árvore, como se os galhos fossem braços de uma genealogia viva, acolhendo o tempo, os rostos e as histórias de sua família no interior do Pará. Em seguida o público foi guiado por tochas de fogo, que eram acesas por uma lamparina, imagem primeira de um caminho que se ilumina pela fé, pela lembrança e pelo místico popular. O corredor teve como destino, um círculo perfeito, como os de tantas culturas que se reúnem para conversar, curar, celebrar e resistir.

A cena se instaurou como um rito de passagem. A coreografia brotava dos gestos da vida rural, como cortar, colher, descascar, peneirar e torrar, transmutando o trabalho cotidiano em linguagem poética. Era como se o ato de fazer farinha, gesto tão ancestral e cotidiano para o povo nortista, se convertesse em metáfora da própria existência: o esforço, o calor, o cansaço e, por fim, o alimento, que mais do que nutrir, une e afeta. Na performance, a farinha era subsistência, mas também elo afetivo, onde partilhar farinha é intensificar o amor e dividir o alimento é também multiplicar a vida.

O artista trouxe ao centro do rito a presença de seus pais, integrados à cena, como pilares dessa memória viva. Esse gesto ampliou o sentido político da obra: celebrar os pais é afirmar a continuidade, a resistência e a força das raízes. Em ‘Farinha Poética’, o ancestral e o contemporâneo coexistem, com o vento, o fogo, a água, os utensílios de trabalho.

O espetáculo se ergue, assim, como um grito político de afirmação da vida, da cultura popular e da identidade negra e indígena amazônica. Cada gesto é um ato de resistência contra o esquecimento.

E quando o público, ao final, come da farinha e dança em roda ao som de “Cirandeiro”, o rito se completa, e então o tempo volta a girar, e o movimento do cirandeiro se torna o próprio símbolo da permanência.

Juani Maniva nos lembra que arte e vida se misturam no mesmo pilão da existência. E que, no grão da farinha (da baguda), há também história ancestral, coletiva e indestrutível.

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Fotos: Wagner Moreira/ Portal Cultura Amazônica

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