Espetáculo mergulha na oralidade dos povos do Tapajós e transforma rio, floresta, ancestralidade e matriarcado em narrativa artística
As histórias que atravessam gerações pela oralidade dos povos do Tapajós estarão no centro do espetáculo do Boto Cor de Rosa no Sairé 2026. Com o tema “Tapajônica – A História Não Contada”, a Associação Folclórica Boto Cor de Rosa leva para a arena uma narrativa construída a partir da relação entre território, memória, ancestralidade e as águas do rio Tapajós.
A apresentação integra a programação do Sairé 2026, realizado de 17 a 21 de setembro, em Alter do Chão, Santarém, no oeste do Pará. Neste ano, a festividade tem como tema “Rêdawa Ancestral – Território, Memória e Continuidade”, estabelecendo um diálogo direto com a proposta artística do Boto Cor de Rosa.
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Em “Tapajônica – A História Não Contada”, o rio aparece não apenas como paisagem, mas como elemento de memória, inspiração e pertencimento. A narrativa parte das histórias que circulam entre os povos do Tapajós e que, segundo a concepção do espetáculo, permanecem vivas pela voz daqueles que habitam o território.
Uma história contada pelas águas
A proposta artística parte da oralidade como forma de preservação da memória. O rio Tapajós é apresentado como um território que guarda histórias, crenças e conhecimentos transmitidos entre gerações.
A canoa, o remo, as águas e a floresta integram essa narrativa como elementos simbólicos de uma travessia. O banzeiro representa os desafios do percurso, enquanto o rio aparece como caminho por onde circulam histórias e saberes.
Na concepção do espetáculo, as águas também estão associadas à origem da vida e à relação dos povos do Tapajós com a floresta. O território é apresentado como uma “casa comum”, onde natureza, cultura e ancestralidade se encontram.
A dramaturgia artística também destaca a presença de três “Marias”, associadas às águas e aos mistérios do território, construindo uma narrativa marcada por crenças, encantarias e pela força feminina.
Ancestralidade e matriarcado
Um dos elementos que atravessam “Tapajônica – A História Não Contada” é o matriarcado. A proposta reconhece a transmissão de conhecimentos e memórias pelas gerações e evidencia a presença das mulheres na construção da identidade cultural do território.
A narrativa aproxima essas referências das chamadas encantarias amazônicas, universo no qual o imaginário, a espiritualidade e a relação com a natureza se entrelaçam.
É a partir desse encontro que o Boto Cor de Rosa constrói seu espetáculo para o Sairé: uma narrativa em que o rio não é apenas cenário, mas parte da própria história que se pretende contar.
O rio como memória e resistência
Ao transformar o Tapajós em elemento central da apresentação, o Boto Cor de Rosa propõe uma reflexão sobre as histórias que permanecem fora dos registros oficiais, mas sobrevivem na memória e na oralidade das comunidades.
A expressão “A História Não Contada” presente no tema funciona, assim, como ponto de partida para valorizar outras formas de conhecimento e narrativa, especialmente aquelas transmitidas pela experiência, pela palavra e pela relação cotidiana com o território.
O espetáculo também assume uma dimensão de resistência. Por meio da arte, o grupo busca levar à arena as vozes dos povos que vivem na região do Tapajós e reafirmar a importância da preservação de suas referências culturais.
“O nosso lugar é banhado e guiado pelo rio que nos faz ser memória, ancestralidade e matriarcado.”
A frase sintetiza uma das ideias centrais da proposta: a identidade cultural é apresentada como resultado de uma relação contínua entre pessoas, águas, floresta, memória e território.
“Tapajônica” e o tema do Sairé 2026
A proposta do Boto Cor de Rosa encontra no tema geral do Sairé 2026, “Rêdawa Ancestral – Território, Memória e Continuidade”, um ponto de convergência.
Enquanto a festividade coloca em evidência a relação do povo Borari com seu território e a transmissão de saberes entre gerações, o espetáculo do Boto Cor de Rosa parte do rio Tapajós para construir uma narrativa sobre as memórias e histórias que constituem esse território.
O encontro entre as duas propostas reforça a dimensão cultural do Sairé como espaço de preservação e atualização de saberes, no qual manifestações tradicionais também encontram novas formas de contar suas histórias.
Boto Cor de Rosa
A Associação Folclórica Boto Cor de Rosa apresenta em 2026 uma narrativa que utiliza música, dança, elementos cênicos e referências do imaginário amazônico para abordar a relação dos povos do Tapajós com seu território.
A comissão responsável pela concepção artística de 2026 é formada por Allan Hills, Édrio Borari e João Pedro Dias, responsáveis pela Comissão de Arte Raiz.
Em “Tapajônica – A História Não Contada”, o Boto Cor de Rosa transforma a arena em espaço de escuta e representação de uma história construída nas águas, nas matas e na memória dos povos do Tapajós.
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