Advertisement

Tambor da Resistência: Gambá é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas após 15 anos de espera

Compartilhar

Manifestação centenária de origem afroindígena torna-se o primeiro bem imaterial registrado pelo Estado seguindo os critérios legais de salvaguarda cultural

O som ancestral dos tambores que ecoa pelas margens dos rios amazônicos acaba de conquistar um marco histórico. O Gambá, uma das mais antigas expressões culturais do Amazonas, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado pelo Conselho de Patrimônio Histórico e Artístico do Amazonas (Copham). A decisão, aprovada no fim de maio, representa não apenas o reconhecimento de uma tradição secular, mas também um ato de reparação histórica para comunidades negras, indígenas e ribeirinhas que mantêm viva essa manifestação há gerações.

O registro provisório, com validade inicial de seis meses, inaugura uma nova etapa na política de proteção cultural do Amazonas. Pela primeira vez, um bem de natureza imaterial é oficialmente registrado seguindo os procedimentos previstos no Decreto Estadual 29.544/2010, criando um precedente para a preservação de outros saberes tradicionais amazônicos.

Uma conquista construída por gerações

A aprovação do registro encerra uma espera de quase 15 anos. O processo, que permaneceu sem conclusão durante mais de uma década, ganhou novo impulso a partir de articulações entre detentores da tradição, pesquisadores, órgãos de patrimônio e representantes culturais.

Para o mestre Ismael Rodrigues Pereira Filho, o reconhecimento simboliza a valorização de um legado construído por muitos que já não estão presentes para testemunhar esse momento.

“É mais uma página escrita com muito amor, entusiasmo e esperança para quem defende esse bem”, afirmou.

A mobilização ganhou força após uma visita técnica realizada em Maués, em 2024, reunindo fazedores de cultura e comunidades tradicionais. O movimento culminou na entrega de uma carta assinada por Mestres e Mestras Gambazeiros solicitando o reconhecimento urgente da manifestação.

O que torna o Gambá único na cultura amazônica

Com registros históricos que remontam ao século XIX, o Gambá reúne música, dança, oralidade, espiritualidade e práticas coletivas de sociabilidade. Sua identidade sonora nasce do tambor de gambá, confeccionado artesanalmente a partir de madeiras amazônicas e couro de veado, acompanhado pelo caracaxá e pelo tamborinho.

A manifestação está presente em municípios como Maués, Barreirinha, Borba, Boa Vista do Ramos, Novo Aripuanã e Manaus, além de comunidades do Médio Rio Negro e da divisa entre Amazonas e Pará. Os conhecimentos são transmitidos pelos Mestres e Mestras Gambazeiros, guardiões de cantos, ritmos, danças e técnicas tradicionais de fabricação dos instrumentos.

Reconhecimento cultural e compromisso com o futuro

Além de celebrar a ancestralidade afroindígena, o registro representa um compromisso efetivo com a proteção do patrimônio cultural. Entre os próximos passos estão a realização do 1º Encontro Estadual de Salvaguarda do Gambá, o mapeamento participativo das comunidades, a elaboração de um plano de salvaguarda e a criação de instâncias permanentes de governança.

Para os detentores da tradição, o reconhecimento chega em um momento decisivo. Diante da perda de mestres históricos e da redução dos espaços de transmissão cultural, o registro surge como instrumento fundamental para garantir que o Gambá continue ecoando pelas futuras gerações.

Mais do que preservar uma manifestação artística, o Amazonas reconhece oficialmente um patrimônio vivo que traduz resistência, memória, identidade e a diversidade cultural que forma a alma da Amazônia.

Acesse o https://www.culturaamazonica.com.br/ e saiba mais sobre a Amazônia e o Mundo.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *